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platô
rizomar...

operar por rizoma
… rizomar e não representar… 
… dançar e não fingir…
…brotar por todos os lados… 
… diferir e não (apenas) representar…

(...)

Sobre a mesa três gestos:
...rabiscar...
...gaguejar...
...dançar...

Como se tramam? Como se combinam? Quais linhas fazem passar?

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...por rabiScos e rizomaS

rabiScos e rizomaS

     Rabiscar e rizomar: o que há entre esses dois movimentos?
     Como dar corpo a um rizoma sem representá-lo? Como fazer dançar uma tese e não fingir? Não fazer apenas exposição?
     Como dar corpo ao múltiplo sem se utilizar de artifícios tipográficos, habilidades lexicais, misturas ou criação de palavras como puros procedimentos miméticos, como uma forma colorida de representar a multiplicidade de um rizoma?

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No princípio havia uma árvore. Uma árvore só.


Aprendi que fui semente regada a florescer em um jardim de infância. E que agora, já madura, dou flor e colho os frutos fortes ou fracos conforme a profundidade das raízes ou a solidez do tronco.
Havia aqui uma árvore, uma árvore só. Que se pensava forte, grande, provedora de seus galhos e administradora de outras pequenas árvores em seu jardim… Uma árvore apenas… prisão vertical, da essência e das origens... saber centrado a se impor violentamente sobre aquilo que não é árvore, sobre um milhão de ervas daninhas. 
Então... um dia veio um víRus (vocês já sabem) e se espalhou por todos os cantos, da raiz ao fruto. 


A árvore que
b
rou.


Seu tronco fundamental e raiz pivotante transformados em matéria amorfa, suas flores macilentas e frutos bolorentos. 


E foi ao chão.
E explodiu!


…É que a vida cruza o tempo todo, desrespeitando os caminhos traçados… brotam ervas por todos os lados, rasgam o asfalto e velhas certezas, são pura medicina para os olhos.


(Diários rabiscados, 13 de outubro de 2021)

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Modo árvore


     Na modernidade  a imagem do conhecimento foi construída a partir da estrutura arbórea. O conhecimento (o cérebro, o pensamento) seria como uma grande árvore, a “árvore do saber” com raízes profundas que “devem estar fincadas em solo firme (as premissas verdadeiras), com um tronco sólido que se ramifica em galhos e mais galhos, estendendo-se assim pelos mais diversos aspectos da realidade” , à medida que cresce, essa árvore produz especializações por todas as direções.  
     É como se o conhecimento acontecesse de forma sucessiva, em que umas ideias mais simples ou fundamentais dessem origem a outras mais complexas ou específicas, em um ciclo contínuo, criando uma infinidade de ramos, todos estes ligados a um tronco principal (sua história e genealogia) sustentadas por profundas raízes (base teórica, princípios e verdades). O paradigma da árvore faz parte de uma concepção estruturada do pensamento, legando ao conhecimento uma suposta estabilidade ao neutralizar variantes em relação aos modos como o conhecimento se produz. Como se o funcionamento do cérebro se desse de modo um tanto “organizado” e previsível, operando por enraizamentos e ramificações .
     O paradigma arborescente implica em hierarquização dos saberes, uma triste imagem do pensamento – reverberando Deleuze e Guattari –, é a representação do mesmo, pois cresce, especializa-se, complexifica-se mas retorna sempre ao Uno (representado pelo tronco e pela raiz), não produz variedade, origina sempre de um mesmo lugar, não há de fato nele espaço para o novo. Um mimetismo dependente de uma lógica binária, que reforça estruturas e identidades. Mantém o mesmo, um modelo de redundâncias de coisas que passam, mas em que nada passa, nada acontece . 
     A árvore dominou todo pensamento ocidental, toda a produção científica do mundo moderno, em todas as áreas. Na escola, desde as etapas iniciais, em uma concepção mais tradicional de educação, podemos ver a imagem da árvore. Na ideia, por exemplo, de que a Educação Infantil seria como um jardim, um “Jardim de Infância” onde pequenas flores seriam cultivadas com carinho por suas professoras em um ensino de fundamentos e bases sólidas, para um bom crescimento e desenvolvimento de cada pequeno ser, com pré-requisitos indo do mais simples para o mais complexo, com grande valor na repetição e na exposição de ideias.

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Gallo, 2000, 2017; Miglievich-Ribeiro, 2014; Brito e Dandolini, 2005.

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Gallo, 2017, p.73.

Deleuze e Guattari, 1992, 2011.

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Deleuze e Guattari, 2011.

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Larrosa, 2002.

Link Gestos 1 / Entre 11
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Modo rizoma

C.A.O.S!

     “Muitas pessoas têm uma árvore plantada na cabeça, mas o próprio cérebro é muito mais uma erva do que uma árvore” , assim o paradigma arborescente explode e dá lugar a “figuras rizomáticas, sistemas acentrados, redes de autômatos finitos, estados caóides” .
     Na obra Mil Platôs, especificamente em seu primeiro volume, Deleuze e Guattari  propõem a imagem do rizoma ao paradigma arbóreo corrente. Não existe um rizoma, mas rizomas que subvertem a lógica arborescente. O conhecimento como algo que se faz como uma produção em rede , em uma relação que se fabrica de forma horizontal, com múltiplas conexões. O paradigma da árvore é “fechado, paralisa o pensamento, o rizoma, sempre aberto faz proliferar pensamentos” . O rizoma está sempre no meio, entre as coisas, um emaranhado de linhas a ligar-se de um ponto qualquer a outro também qualquer, em qualquer direção, “riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio” . 
     “Há o melhor e o pior no rizoma” . Não fazemos aqui uma simples oposição entre a árvore-raiz e o rizoma-mapa. Não produzimos aqui algo que se fixe em apenas negar a lógica majoritária, mas arriscamos nesta dança puxar outros fios, fios que nos ajudam a dar a ver modos outros de existência, outros modos de escrever, pensar e viver.
Nossos autores listam características aproximativas do rizoma, apresentadas como seis princípios. Tentaremos rabiscá-los por aqui, mapeando encontros no esforço de não (apenas) tematizar, mas operar por rizomas.

 

     Princípios do Rizoma:
     1.    Conexão
     2.    Heterogeneidade
     3.    Multiplicidade
     4.    Ruptura assignificante
     5.    Cartografia
     6.    Decalcomania

Deleuze e Guattari, 2011, p.34, MP1.

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Deleuze e Guattari, 2010, p. 254.

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Deleuze e Guattari, 2011. MP1.

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Deleuze e Guattari, 2011. MP1

Gallo, 2017, p. 76.

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Deleuze e Guattari, 2011, p. 49. MP1.

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Deleuze e Guattari, 2011, p.22. MP1.

Link Avós 2
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Sentar e espalhar: gestos de olhar.

     Em casa, sento no chão para bagunçar as ideias. Espalho meus diários, notas, rabiscos, e fragmentos de coisas. Quero ver como se ligam, como se rompem, onde se aproximam e onde se afastam. Preciso calibrar a atenção entre rabiscos e gaguejos rascunhados enquanto se caminha e se dança. Quem sabe consigo catar hoje alguma coisa do que escapa. Entre rabiscos, bordo algumas linhas e puxo alguns fios… um deles me leva a uns rascunhos de vídeos produzidos em 30 de novembro de 2017. Naquele dia estávamos, os surdos e eu, na Escola Municipal Paulo Freire (EMPF) gravando em Libras o título que apareceria também em português no início de uma sequência de vídeos curtos que estávamos produzindo. Cada surdo faria em Libras um título que demos aos vídeos e estes seriam apresentados com a tradução em português ao lado da sinalização no início de cada curta. 
     Na sua vez, Carlos um adolescente de 13 anos, sinaliza, sorri e dança interagindo com a câmera e ao mesmo tempo provocando os colegas que se punham a volta, atrás de mim enquanto eu segurava o celular nas mãos. Fazemos várias tomadas. Em um determinado momento – não sei dizer o porquê, meus olhos estão sobre a câmera e a lente apontada para Carlos, vejo apenas Carlos em meu campo de visão, mas como em qualquer sala de aula, muitas coisas acontecem ao mesmo tempo –, Carlos rompe o que fazíamos e puxa outro fio. Por uma dessas coisas, impossíveis de serem descritas  em palavras, começa a falar de si, torce o fio de um dos títulos dos vídeos para narrar-se. Conta sua história, descolado, solto, fala da infância, como cresceu menino bonito, o mais bonito de todos! E logo puxa outro fio e desviando os olhos um pouco de seus amigos, ele cresce em frente à câmera e começa a falar de seus sonhos para o futuro: estudar, estudar muito, fazer faculdade, trabalhar, ter um filho, trabalhar bastante… e em sua vida de adulto coloca ao seu redor no trabalho, em casa ou na vizinhança seus colegas de turma, ele faz o sinal em Libras de cada um deles. Em seu sonho de futuro, eles continuam juntos, caminhando, rindo e brincando por aí, como hoje o fazem. Ele termina. Eu paro a gravação. Ele se junta a seus amigos ainda brincando em seu jeito moleque. Riem, se tocam, se provocam.
     Sento-me pensando no que aconteceu. Era para ser a gravação em Libras dos títulos dos curtas... A cabeça gira. Não consigo não pensar em palavras que ouvi  em outros momentos de alguns adultos da escola ao nomeá-lo e encerrá-lo de diferentes modos, projetando sobre ele um decalque do qual ele parece fugir com toda ginga a espalhar-se por outros cantos: “- Ele desafia a gente o tempo todo…”,  “- vai seguir o caminho do irmão preso, já está envolvido…”, “- Até é muito inteligente, mas não quer nada com a escola, não respeita ninguém aqui dentro…”, “-A mãe dele já largou de mão, ela é muito doente, tadinha dessa mãe…”, "-Impossível trabalhar com ele, só com  muita firmeza para manter o controle”. 
     É um desafio trabalhar com ele, parte de mim concorda – ao menos neste modelo de escola-árvore que vimos experimentando... Mas algo em sua rebeldia me chama atenção, algo no modo como encara a vida me afeta, me move... sua primeira atitude em tudo na vida parece sempre ser de confronto, de desafio... 


(Diários Rabiscados, vários deles, de novembro de 2017 a março de 2022) 

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Nomadismo

 

     Mas, estejamos atentas. Como já dissemos, não fazemos aqui uma simples oposição entre a árvore-raiz e o rizoma-mapa. Os binarismos, as representações com suas significações e identidades não nos interessam mais. 
     ...É que se produz aqui uma pesquisa-nômade, de um corpo nômade com várias linhas ainda estruturadas, linhas duras, molares... É que se produz aqui uma pesquisa-raiz de um corpo-árvore explodindo em hastes por todos os lados.

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Menino-nômade

Eles chegam em bando, suados, eufóricos, puxam, empurram, gargalham e se provocam. No pátio, um sinal luminoso juntamente com o sonoro é acionado e, aglomerados, eles deixam (não de todo) seu momentorecreio e sobem para a sala de aula. Na porta da sala, mãos agitadas movem-se para todos os lados. Alexandre vem correndo, seus pés parecem quicar! Se aproxima da professorarteira e de mim. Entusiasmado, comenta conosco algo que conversava com seus colegas. Ambas sorrimos. 
A professorarteira levanta o polegar mais afirmativo que se possa conceber. Ele nos olha, seus olhos brilham... Eu não tinha entendido um só sinalpalavra! Constrangida, insegura com a língua, me deixo copiar o outro, e, como professorarteira, aceno positivamente. Alexandre, sorrindo, se afasta, acompanha os colegas até o fundo da sala e continuam a conversar em suas carteiras. 
Entre os dentes pergunto à professorarteira: “- O que ele disse mesmo?” (minha necessidade de comPREeNDER grita alto!). A professorarteira olha para mim e sorri: “- Não sei, alguma coisa que inventou em casa. Às vezes eu também não entendo, fique tranquila (meus pensamentos quase palpáveis). A maioria deles vêm de famílias ouvintes e muitos chegam aqui no Ensino Fundamental sem ter passado por escola ou sem ter tido contato com surdos em outros espaços. Em casa eles criam seus sinais para conversar com seus pais e irmãos. Quando chegam aqui, eles trazem isso com eles e nessa cacofonia de línguas conVERSAM.”
(...)
Alexandre, um nômade em sua língua(,) escapando pelo tempo livre da escola de seus enraizamentos…


(Diários Rabiscados, 05 de setembro de 2017)
 

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     Logo de início, digo a vocês, na escola nossos encontros se dão em Libras, pelo visual, espacial, gestual e por uma série de sensações que atravessam nossos corpos (confesso que recorro ao português também em alguns momentos, porque às vezes preciso de fôlego e me reterritorializo), sendo assim trago aqui palavras escritas, não como uma representação do que se passou, mas um modo possível de dizer, em alguma medida, sobre as coisas que nos passaram. Pois que, “o que se pode dizer numa língua pode não ser possível noutra, e o conjunto do que é possível ou não dizer varia necessariamente segundo cada língua e as relações entre as línguas” .


Conexão


     Qualquer linha do rizoma pode se conectar a outra linha em qualquer ponto e esta, não necessariamente, remete a outra de mesma natureza. Como em um rizoma, nesta pesquisaescrita rabiscadadançadagaGuejada, as conexões não seguem uma sequência pré-determinada. A árvore-raiz preza pela sequência. Para chegar a um determinado ponto, é necessário passar por determinados lugares. Mas no modo rizoma, o pensamento se ramifica, “faz bulbo (…) evolui por hastes e fluxos subterrâneos, ao longo de vales fluviais ou de linhas de estradas de ferro, espalha-se como mancha de óleo.” . 

Heterogeneidade


     Dado a qualquer conexão, o rizoma é como “um tubérculo que aglomera atos muito diversos, linguísticos, mas também perceptivos, mímicos, gestuais, cognativos: não existe língua em si, nem universalidade de linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoás, de gírias, de línguas especiais” .

Ruptura assignificante

     Me digam, é assim também uma conversa, não é? Amiga, lembra? Quando sentamos para conversar, sempre variamos e costuramos coisas tão diversas em uma mesma trama? De uma coisa passamos a outra sem que necessariamente estas sejam da mesma natureza. Traçamos linhas de fuga, rotas, e cavamos tocas impensáveis sem que tentássemos prever.  É como o menino Carlos, como qualquer um, cortamos e rompemos qualquer pensamento para tornar a seguir outro assunto ou para interromper, pois que nunca terminamos uma conversa, apenas efetuamos interrupções.

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Deleuze e Guattari, 2021, p.48.

Deleuze e Guattari, 2011, p.23.

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Deleuze e Guattari, 2011, p.23.

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     “Nunca se sabe aonde uma conversa pode levar... uma conversa não é algo que se faça, mas algo no que se entra... e, ao entrar nela, pode-se ir aonde não havia sido previsto... e essa é a maravilha da conversa... que, nela, pode-se chegar a dizer o que não queria dizer, o que não sabia dizer, o que não podia dizer [...] uma conversa não termina, simplesmente se interrompe... e muda para outra coisa”. 

Larrosa, 2003, p.212-213.

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Link Gestos 3
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     A história do pensamento “sempre foi escrita do ponto de vista dos sedentários”  linear, enraizada, organizada, até mesmo quando fala dos nômades em seus fluxos e seu diferir. Deleuze e Guattari  defendem que o que falta mesmo na escrita é uma nomadologia que seria ela mesma “o contrário de uma história” , algo que suporte outros fluxos. Fluxos não previsíveis, não capturáveis. Uma escrita que se ponha para dançar à medida que a vida pulsa e delira. Sem imitação ou modelos, mas apenas agenciamento, puro agenciamento de linhas, tramas e fluxos, fazendo com que o próprio pensamento devenha nômade. “Porque a própria ciência seria completamente louca se a deixassem agir [fluir, tramar]; vejam, por exemplo, a matemática: ela não é uma ciência, mas uma prodigiosa gíria, e nomádica”. 

Deleuze e Guattari, 2011, MP1, p.46.

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Deleuze e Guattari, 2011, MP1, p.46.

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Deleuze e Guattari, 2011, MP1, p.46.

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Deleuze e Guattari, 2011, MP1, p.46.

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Multiplicidade

     Antes de chegar a um lugar, há sempre a ideia de como seria esse lugar... Por vezes, antes do encontro, há a ideia do encontro. Antes de acontecer, o que nós temos é apenas a ideia... 
    Possuía, eu, também, ideias sobre as classes bilíngues de surdos, sobre a relação desses grupos dentro de uma escola dita comum. Entre outras coisas, imaginava uma classe bilíngue com um grupo de surdos, apenas surdos, um professor bilíngue e um professor surdo, referencial. Como língua de comunicação, 'naturalmente' imaginava a Libras e o árduo trabalho com o português escrito. Como recurso acessível a todos, triunfava em minhas ideias a imagem, e um grupo, como outros, vivenciando as lutas diárias em uma escola pública, em seus sucessos, dificuldades, recursos ou poucos recursos... Imaginava os surdos da EMPF “como sujeitos plenos de uma marca cultural” ...
     Ao chegar à escola Paulo Freire, na turma que me acolheu, encontrei e me encontrei em um lugar ainda mais múltiplo e multifacetado que em minhas ideias... Encontrei surdos falantes de língua de sinais, surdos oralizados, surdos que se comunicavam com sinais caseiros. Encontrei surdos com uma percepção visual espantosa e outros com outras formas de experenciar a visualidade. Encontrei surdos que ouvem com o ouvido, mas que têm na Libras seu modo de falar com o outro. Surdos que têm suas músicas preferidas e que se relacionam com o som de modo que eu não poderia imaginar até experimentar com eles. Surdocegos que dançam funk . Encontrei o menino surdo amante de Deadpool  que,de toda sorte, burlava regras e nos torcia com seu sorriso mais peralta e sedutor.  Encontrei uma professora bilíngue, um professor surdo em uma turma de quinto ano, com surdos em transição da fase da infância para a adolescência... e duas professoras de apoio... pois, nessa classe, havia ainda cinco surdos diagnosticados com alguma chamada deficiência: deficiência intelectual, física, baixa visão e autismo...
Como professora, em sala de aula, trabalho com todas as crianças, trabalho com todos [e quaLquEr um], mas, nesse momento, antes de encontrá-los, imaginei surdos e esqueci de pensar em todos e em quaLquEr um... 
     Sim, uma classe bilíngue é também inclusiva... lugar de estar juntos, lugar de quaLqueR um [e de cada um]. 
Os surdos não são uma categoria única, mas uma “identidade múltipla ou multifacetada” 

 

(Diários rabiscados, 11 de agosto de 2017. In Cardoso, 2019) 

Duschatzky e Skliar, 2000 p.168.

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Gênero brasileiro de dança e música produzido a partir da periferia.

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Skliar, 2016, p. 11.

Cardoso, 2019, p. 49-50. (dissertação)

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Personagem do universo Marvel Estúdios caracterizado como anti-herói.

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     Uma das estratégias de exclusão do outro na modernidade são os eufemismos com os quais os delimitamos . Um desses eufemismos está carregado na palavra diversidade. Limitam-se os outros a partir de uma marca comum, encerrando toda uma multiplicidade de sujeitos em uma só característica. Eliminando diferenças e amenizando conflitos, como se todos que possuem aquela marca compartilhassem a mesma cultura, fizessem parte de um grupo cultural de forma homogênea e harmoniosa.

Duschatzky e Skliar, 2000.

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“É somente quando o múltiplo é efetivamente tratado como substantivo, multiplicidade, que ele não tem mais nenhuma relação com o uno” , com o tronco e sua raiz pivotante, com uma suposta vida feita de ramificações lineares, hierárquicas, organizadas e higiênicas de conflitos. O UNO não existe. Não existe um tronco do qual devenham todas as coisas que estão a ele relacionadas e que crescem e se especializam a partir dele. O que existem são apenas grandezas e dimensões em fluxos contínuos, constantemente diferindo e se transformando em outra coisa, “não podem crescer sem que mude de natureza” . A esse crescimento nossos autoresamigos  chamam de agenciamento . Não existem pontos ou posições em um rizoma, mas apenas linhas. As multiplicidades são planas e os fluxos de linhas crescem ocupando, preenchendo e transformando suas dimensões. Na árvore encontramos pontos, posições e um crescimento ligado ao UNO (pivotante): cresce, se especializa, mas não muda de natureza. Mas, em um rizoma, o crescimento das dimensões é justamente o agenciamento das linhas e fluxos, que não param de se tramar, variar e mudar suas distâncias e aproximações. Uma multiplicidade “que muda necessariamente de natureza à medida que ela aumenta suas conexões”  ao se tramarem a outras multiplicidades. 

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Deleuze e Guattari MP1, 2011, p.23.

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Deleuze e Guattari, 2011. MP1

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Deleuze e Guattari MP1, 2011, p.23.

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Deleuze e Guattari, 2011, p.24.

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Decalcomania

 

Podem dançar as palavras?
As palavras dançam?
Em meu corpo, sim.
Mas, olhando as pedras do caminho me pergunto:
Podem-se empedrar as palavras?
Estratificação? Monumento? Decalque?

     Aqui nesses rabiscosdançados afirmamos os surdos não como um grupo único, mas múltiplo e multifacetado. Nem todos os surdos têm a Libras como primeira língua, nem todos a aceitam, reconhecem ou legitimam. Nem todos os falantes da Libras experienciam essa língua do mesmo modo e no mesmo tempo. A experiência visual, seu primeiro artefato visual  e característica marcante, não é a mesma experiência, vivida do mesmo modo para todos os surdos. Há diferentes formas de expressão dessa visualidade. A surdez compõe uma experiência que não comporta movimentos de homogeneização. Os surdos formam um grupo heterogêneo “permeado por muitas diferenças, umas até rejeitadas por outras, alvos de inúmeros preconceitos e disputas intragrupo.” . (No platô entrecorporeidades rabiscamos mais linhas com o conceito de surdez e experiência visual com os quais arriscamos dançar.)

     Apostamos na ideia de que a surdez não constitui um tronco do qual derivam todas as formas de ser surdo. Muitas formas de ser surdo são demasiado distintas, produzindo disputas e diferentes formas de militância. 
   Na escola, me encontro com corpos múltiplos, nos encont(Ramos). Nossos corpos fluem em muitas direções, um agenciamento intenso de linhas que se tramam e se torcem, compondo múltiplas dimensões e grandezas. Multiplicidades a se atravessarem compondo novas multiplicidades em intensidades, velocidades, temperaturas e distâncias variáveis. Em cada atravessamento, o corpo desterritorializa; em cada desterritorialização, uma experiência; e em cada experiência, um corpo transformado, um corpo outro, que não é mais o mesmo e devém: menino surdo a devir-deadpool, devir-funk, devir-música, corpos surdos a devir-outros.

Strobel, 2016.

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Cardoso, 2019, p. 52 (dissertação)

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Link Entre 5
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Atividade do dia: construir um storyboard com o tema “Copa do Mundo”. Distribuo algumas folhas e me ponho a postos para orientá-los no processo. Começamos a produção. 
Alguns, de início, não compreendem bem a proposta. 
A professora Renata, que atua como modelo linguístico,     intervém. Explica em Libras de formas diferentes das que eu havia sinalizado, criando outros classificadores, atua, se expressa intensamente... fico encantada com sua arte! Ela utiliza referências outras, compreende os aspectos da visualidade de muitos outros modos. 
As crianças montam as sequências das histórias com desenhos. Em seguida, embaixo de cada imagem, escrevem a narrativa em português, 
ajudamos na escrita. 
De um lado, a professora Renata me chama, pede que eu veja a produção escrita de um estudante que estava com ela: “- Está escrito certo? Me ajuda?”. 
De outro lado, Gustavo exclama:
-Acabei!
Passo o olho rápido e respondo:
-Mas ainda faltam duas celas, continua, vai.
- Não. Acabei já.
- Só mais um pouquinho... continua a história!
Gustavo dá-se por vencido. Completa as celas da folha com outras cenas para a história.
Termino com outros estudantes e volto para Gustavo. Seu semblante parece entediado e até chateado. 
Vejo sua história novamente. Muito boa! Uma história completa. Com início, meio e fim... até a sétima cela.
As duas últimas celas (8ª e 9ª) não fazem sentido, não completam a história, apenas repetem algo já dito.


(Diários rabiscados, 07 de junho de 2018. In: Cardoso, 2019 )

A árvore na minha(nossa) cabeça

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Cardoso, 2019.121-122 (dissertação)

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Clicando aqui, é possível acessar uma playlist com todos os vídeos produzidos durante a pesquisaescrita de mestrado, incluindo os vídeos de animação produzidos em nossas oficinas. Todos os vídeos encontram-se disponíveis também na dissertação de mestrado (Cardoso, 2019) e em ‘Outros vídeos’ no site da tese.

     Este relato faz parte de um dia de oficina de produção de animações  com crianças surdas da Escola Municipal Paulo Freire (EMPF). Nesse encontro, muitas coisas nos passaram, entre elas o fascínio que a visualidade na educação de surdos sempre provoca em mim.  Em nossos encontros, a expressão visual através da língua é o caminho de entrada. A partir do visual, trilhamos e produzimos diferentes possibilidades, entre elas storybords. O storyboard é o roteiro visual em nossas oficinas, uma versão em desenho que contém todo conceito visual de um projeto na narrativa de uma história ou na produção de um vídeo. Nesse dia, utilizamos um storyboard com nove celas em branco e, entre muitas coisas que se passam ao mesmo tempo em uma sala de aula. Gustavo, antes de todos os colegas, e utilizando menor quantidade de celas que os demais, compõe uma narrativa completa de sentido, do início ao fim, ainda que, no lapso do momento, eu não tenha sido capaz de perceber...
 

(...)


     Fincada em raízes arborescentes, algo lateja no intento de regular o que acontece a partir de um referencial dado, para que todos cumpram a atividade de modo satisfatório em um mesmo tempo, invisibilizando outras possibilidades de ser e fazer. 
     Pedras em mim a produzir decalques... “as precauções a serem tomadas para amolecê-la, suspendê-la, desviá-la, miná-la, testemunham um longo trabalho que não se faz apenas contra o Estado e os poderes, mas diretamente sobre si” 

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Deleuze e Parnet, 1998, p. 160.

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     Há no rizoma muitas linhas, ele é feito de linhas, emaranhadas linhas, um agenciamento delas comportando “linhas de segmentaridade dura e binária, quanto linhas moleculares, ou linhas de borda, de fuga ou de declive” . Há, no rizoma, diferentes modos de agenciamento e diferentes modos de operação. Um rizoma opera também por decalque.
     No decalque, encontramos a lógica da reprodução. Reproduz-se a partir do UNO, a partir da ideia de uma origem de onde devêm todas as coisas. A partir da raiz e seu tronco UNO, existe um modelo a ser replicado, os modos de fazer já estão dados, cabendo a todos fazer como o já prescrito. Reproduz-se ao infinito. A diferença é mera diversidade variando até o aceitável, até o ponto que não cause grandes abalos e desconfortos. 
     “O decalque já não reproduz senão ele mesmo quando crê reproduzir outra coisa. Por isso ele é tão perigoso. Ele injeta redundância e as propaga.” . E ele está em nós, nos compõe. Tem uma árvore na nossa cabeça que estratifica e segmenta todas as coisas, e que nesse processo, anula outros modos de pensar, ser e existir. Mas, o que fazer?  “Mesmo se tivéssemos o poder de fazê-la [a árvore] explodir, poderíamos conseguir isso sem nos destruir, de tanto que ela faz parte das condições de vida, inclusive de nosso organismo e de nossa própria razão?” . Somos compostos de linhas, que se atravessam e tramam em muitas direções e lugares, algumas linhas de fuga, outras maleáveis, mas também há muitas linhas duras, duras como pedra. Nossos autores amigos nos dizem ainda, “as precauções a serem tomadas para amolecê-la, suspendê-la, desviá-la, miná-la, testemunham um longo trabalho que não se faz apenas contra o Estado e os poderes, mas diretamente sobre si”
     Perguntamos por aqui: podem-se empedrar as palavras? Podem-se empedrar os conceitos? Pode-se empedrar a existência do outro? É que as pedras nos compõem, mas algumas vezes elas podem emergir de tal modo subjugador, encerrando por completo as palavras, os conceitos e o outro em apenas um modo de ser, que deve ser seguido como uma norma, cristalizando as palavras, tomando-as como preexistentes, como verdade. 
     Você pode achar que estou sendo por deveras dura, pois na agitação de uma sala de aula não se consegue atentar a tudo. Não consegui atentar cuidadosamente para a história daquela criança naquele momento, supus que ainda não havia terminado e sugeri que continuasse
“Só mais um pouquinho”. Mas algum tempo depois, tendo parado e olhado com atenção, percebi minha falha. Mas a questão aqui não são as falhas que cometemos, chamo a atenção para algo tão pequeno e desimportante para poder pensar a respeito dessas coisas pequenas que fazemos todos os dias, sabe? O que há dentro do que fazemos? Como fazemos? Por vezes não vemos, porque pressupomos já ter visto e sabermos, lançando mão de orientações rápidas, pois as regras já estão dadas, é só segui-las. Automaticamente concluímos e encerramos as palavras, os conceitos, as coisas e o outro: DECALQUE, PEDRA, UNO, RAIZ. 

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Deleuze e Parnet, 1998, p.153.

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Deleuze e Guattari, 2011, p.31-32. MP 1

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Deleuze e Parnet, 1998, p. 160.

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Deleuze e Parnet, 1998, p. 160.

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Março de 2017

     Primeira orientação coletiva de meu texto em nosso clube-costura Coletivo . Naquele início, não entendia o que tecíamos ali juntas, nem como faria parte desse tecer. Foram 3 horas nas quais me senti sabatinada, tonta, apavorada, miúda, queria abrir um buraco e fugir. 
     Mas o incrível é que ao mesmo tempo, me sentia maravilhada, querendo experimentar todas as possibilidades ao mesmo tempo, ansiosa por abrir as asas e voar. Tudo muito intenso – como me é de costume experimentar. Desse dia, guardo algumas coisas como tatuadas na pele:

     “Será que vou aprender a compor com o que se costuma deixar de lado na pesquisa acadêmica: arte, emoção, sentimento, relação pessoal com o que se estuda? Será que é realmente importante tratar dessas questões? 
(Mas, dentro de mim, gostei da ideia!) Hoje me senti maravilhada com tudo o que vi e ouvi...”  

     Havia visto e escutado coisas que, se eu acolhesse, me fariam cortar praticamente tudo do que tinha escrito... e já tinha sido tão difícil começar... Eu sabia quão penoso foi voltar a sonhar um sonho que em minha casa ninguém entendia e que, para alguns daqueles que olhavam para o lugar de onde vim julgavam “não ser algo para mim”. Afinal já tinha chegado mais longe do que qualquer um de minha estirpe, tinha feito faculdade! E havia ainda aqueles que diziam não saber como eu não tinha engravidado na adolescência como várias amigas e vizinhas que acabaram interrompendo seus estudos ... 
     Ao mesmo tempo, fascinada, se desenhava diante de mim uma trilha que eu não imaginava que podia arriscar dentro da universidade, muito menos na pós-graduação:

     “... Posso narrar minhas experiências de uma forma outra? 
Ao lerem meu texto inicial, as meninas do Coletivo me perguntaram: - cadê a bailarina? Cadê a artista no seu texto? Cadê você? 
“- Sua dissertação pode ser também visual.... Vamos pensar juntas?” 

(...) 
Eu posso narrar com imagens no meio acadêmico? 
No palco, narro com imagens, movimentos, música, dança e teatro, uma narrativa visual que comunica uma mensagem, uma história que é compreendida pelo público, cada um a seu modo permeado por suas singularidades. Geralmente não estou preocupada em explicar e dizer o porquê, simplesmente é... e assim se faz. 
(...) 
De repente meus olhos se enchem de lágrimas... Mas por quê? 
Fiquei ao mesmo tempo admirada e com medo... Comecei desesperadamente a desenhar em um papel que encontrei e com a caneta que tinha nas mãos. Comecei a rabiscar... como fazia antigamente durantes as aulas na escola. 
Medo!
Saberei eu me organizar de outra forma no papel? Não posso escrever como aprendi na faculdade? E ir aos poucos inserindo outros aprendizados? Terei que mudar? Interessante essa perspectiva... mas mudar o quanto? 
Enquanto isso, eu rabiscava o papel com força... estava exausta. Terminei, guardei meu desenho dentro do caderno. 
Alguém atrás toca o meu braço: 
- Ei! Mostra! 
- O quê? 
- O teu desenho! 
- Não!!! 
- Essa é a tua narrativa, mostra! 
Perguntaram o que era o desenho, respondi: “Mãos dançando”. 
Ao que alguém retorquiu: Pensei que fosse um clamor, parece um CLAMOR!”

 

(Diários rabiscados de março de 2017 e 24 de junho de 2022)

Leão, 2022.

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Cardoso, 2019, p.38. Dissertação

Cartografia

 

     - Como dar corpo a um rizoma? 
     - Não seria outra a pergunta?
     - Sim... Como dar corpo a um rizoma sem representá-lo?
     - Mas faz?
     - Como faz?
     - Não faz.
     - Então o que estamos fazendo aqui?
     - Não faz.
     - Você já disse isso.
     - Não faz. Se ensaia.... Vai-se ensaiando uma forma outra de dizer na busca de suporte para dizer coisas indizíveis... não necessariamente se resolve, mas se ensaia e se continua a ensaiar.

     (...)

     ... Uma pesquisa-nômade, de um corpo nômade com várias linhas ainda estruturadas, linhas duras, molares. Uma pesquisa-raiz de um corpo-árvore explodindo em hastes por todos os lados.

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“O rizoma é sempre um rascunho, um devir, uma cartografia a ser traçada sempre e novamente, a cada instante.”
Sílvio Gallo 

     Nesta pesquisaescrita algumas perguntas nos acompanham nos passos de cada coreografia aqui arriscada, são elas, as perguntas, que nos movem: Como estudantes surdos e pessoas chamadas com deficiência na escola se produzem, se inventam em sua corporeidade e se de(trans)formam a despeito dos padrões de normalidade que organizam majoritariamente nossa sociedade? O que seriam os tais processos de estetização da vida? Como se forjam processos de singularização que produzem a vida de outros modos nas fugas ao que está posto para os corpos surdos e ditos deficientes? Em alguma medida, o dançar, o rabiscar e o gaguejar com os corpos em sua potência nos dão elementos para problematizar a produção da vida, quALqueR vida e c.a.d.a. uma como uma obra de arte? 
     Poderíamos pensar o rabiscar, o dançar, e o gaguejar como possibilidades no exercício errante da cartografia a produzir devires na educação com surdos criando fissuras e inventando a vida?
     Os rabiscos que aqui tomam forma, espaço e movimento, me acompanham no tempo já desde muito nova. Além de papel e lápis, ganham curvas de um corpo-movimento, mãos que desenham no ar em Libras, linhas, agulhas e novelos. Um rabiscar desvairado a expressar, por suas linhas, afetos e entreafetos... a cartografar caminhos enquanto são traçados, mapeando paisagens que nos compõem.

Gallo, 2000, p. 31.

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     Este é (talvez) o primeiro rabisco que arrisquei rascunhar por aqui. No mestrado, esses rabiscos eram desenhos, desenhos que compunham um exercício que na época chamei de desenhografia. Desenhografava o que me atravessava, os efeitos dos encontros que tocavam a pele. Desenhos que compunham a força expressiva de uma cartografia: “aquilo que me permite escrever na processualidade da pesquisa e que amplia as possibilidades de problematização do campo de pesquisa e do objeto que vai se forjando à medida que a pesquisa transcorre (...) “Um dispositivo para fazer-pensar repleto de linhas do oficinar, do narrar com microrrelatos e desenhografia, uma composição ensaiada e desenhografada para produzir um modo outro de narrar provisoriedades.”  

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Cardoso, 2019, trechos p. 14 e 97.

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     Ao trazer este diário, penso no modo como meu corpo vêm inventando seus modos de rabiscar no presente-limite. No limite da experiência, um vulcão dentro de mim urge por materializar em obra os desassossegos que me roem e vibram a pele, os rabiscos, aqui ensaiados, são parte disso. “Como se sua pele reagisse mais rapidamente do que as demais ao desassossego que ele provoca. É na obra que o artista materializa o diagrama que sente vibrar em sua pele, [mas também pode acontecer por vezes de] sem por isso corporificá-lo necessariamente em alguma nova figura de sua subjetividade, a qual, diga-se de passagem, pode ser das mais travadas.” 

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Rolnik, 1997, p.3.

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     Um corpo geléia viva ! 
     O que fazemos com o incômodo que sentimos quando, por vezes, o outro transpassa nosso corpo?
     Amigas, esses diários aqui rabiscados se forjam dos efeitos de nossos encontros, os efeitos do ser atravessada por seus afetos, indagações, leituras, conversas, choros, olhares e risos. No desafio coletivo que sustentamos de “pesquisar afirmando o amargo sofrimento do pesquisar-viver, sem apresentar resultados, resolver, consertar, dar respostas, mas fundamentalmente tornar visíveis as forças que atravessam a investigação e a escrita enquanto encontro-experiência” (...) um “desafio de escrever afirmando o amargo sofrimento do escrever-viver...”  
     Efeitos que provocam abalos e que, no limite, se fazem experiência, me transformam... Abalos provocados por um número sem fim de perguntas inquietantes que fazemos umas às outras quando nos reunimos para costurar os retalhos de nossas pesquisaescritas: –Para que estou aqui se não para ser outra? Porque fazer mestrado/doutorado se quero seguir pensando/fazendo o que faço/penso desde sempre??? “Não se trata de escrever sobre um tema, uma questão, um problema e sim expor as travessias e implicações que o encontro e a emergência com o tema-questão-problema provocam em nós e o que fazemos com isso”.  O que fazemos com isso? (...) ecoa a pergunta que nos faz a arteira-mestre, nossa querida Ane...

 

(...) “um grupo se debate, se enrola, se torce e se desfaz em linhas, em palavras, em escritas(...). 
e se cuida.
Um Coletivo a funcionar como um cuidado, um cuidado de si e do outro.

 

     Nessa pesquisaescritavida, por vezes meu corpo grita desde dentro: NÃO! Outras vezes meus olhos brilham com a expectativa: Posso fazer de outro modo? Podemos experimentar com afetos abertos? e me empolga! Isso que fazemos aqui coletivamente provoca em nós muitos desassossegos. Mas, também que incrível que provoque! Juntas e com outros, em especial, estudantes chamados com deficiência tramamos nossas pesquisasescritasvida! “O que pode um grupo? É que não se sabe o que pode um corpo, não se sabe o que pode um grupo: potência de afetar e ser afetado. O que pode a escrita de um grupo quando se escreve em grupo, a muitas mãos, com muitos desejos, na multiplicidade da existência-grupo?” 
     Ao longo deste platô, há diários, rabiscos, gaguejos e silêncios (não muitos desse último, eu sei). Abrindo-os sobre a mesa, puxando alguns fios, fazendo passar por eles as linhas do rizoma, penso nos rabiscos arriscados aqui enquanto caminhamos nos encontros com vocês, minhas amigas, com os surdos, com minhas avós, e penso no último princípio do rizoma que separei aqui: o princípio da cartografia.

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Referência à crônica “Geleia Viva” de Clarice Lispector.

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Clareto e Veiga, 2016, p.38 e 39.

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Ribetto, 2016, p.58.

Clareto e Veiga, 2016, p. 35.

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Clareto e Veiga, 2016, p.33.

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     A cartografia como o rascunhar de um mapa. Como esgarçam nossos amigos-autores o mapa “é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-lo como obra de arte, construí-lo como uma ação política ou como uma meditação(...) Um mapa tem múltiplas entradas contrariamente ao decalque que volta sempre ‘ao mesmo’. Um mapa é uma questão de performance.” .

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Deleuze e Guattari, 2011, p.30.

     Nesse sentido, cartografar seria um movimento reiterante de fazer e desfazer e refazer “desenha[ndo] a rede de forças à qual o objeto ou fenômeno em questão se encontra conectado, dando conta de suas modulações e de seu movimento permanente. Para isso é preciso, num certo nível, se deixar levar por esse campo coletivo de forças” ... é preciso um certo nível de abandono, abertura, de experimentação... e de dança.
     Quem sabe tensionando diários rabiscados possamos fabricar com nossos corpos em movimento, em Libras, um exercício errante, incerto, meio titubeante em que possamos juntar fragmentos de coisas, linhas, giz, novelos, folhas, galhos, tecidos... e com essas coisas rabiscar, ensaiar, dançar e bordar cartografando a língua de nossos corpos em movimento, sua pulsão, incertezas e desejos? Cartografar de modos outros, produzindo mapas moventes, abertos, nômades, errantes... um rizoma, “um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem” . 

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Barros e Kastrup, 2009, p. 57.

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Rolnik, 2016, p. 23.

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Rizomar ... por gaGuejos e rizomas...

gaGuejos e rizomas
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Gaguejar e rizomar... O que há entre esses dois movimentos?

(Um aviso)
O leitor só verá desfilar os meios inadequados: fragmentos, alusões, esforços, pesquisas,

e que não se tente encontrar aí uma frase bem-limada, ou uma imagem perfeitamente coerente;

o que se imprimirá nas páginas é uma palavra embaraçada, uma gagueira...
Andréy Biely 

 

 Andréy Biely, apud Deleuze, 2011a, p. 146.

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danç(risc)ando, sem gramática.

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gaguejos de um corpo vacilante
Fragmentos...
Rabiscar(dançar), escrever(mover), ler(caminhar), reler(catar)...
Riscar(gaguejar), escrever(descarregar)... 
ler e rabiscar sobre o que havia.
Fazer a escrita crescer pelo meio – gaGuejar(brotar). 
Trans(des)formar a língua, fazê-la descontí-NUA.
Fazer da língua gestos…
Ensurdecer a Língua
Um material constantemente rabiscado, movido, quebrado em uma incessante insatisfação que move e faz um material bruto e acabado crescer pelo meio... brotando raízes pelos lados e por dentro... Rizomando, aqui e acolá. 
Até que se rompam as fronteiras, se desfaçam as formas e as fôrmas (elas não suportam a gagueira).
Fragmentos...  
metamorfoseios de um corpo múltiplo


(Diários Rabiscados, 11 de agosto de 2021)

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     Forja-se aqui um textofragmento em gaguejos e rabiscos de um corpo vacilante –  que vai mal com as palavras – um corpo em movimento que ultrapassa a fala em direção à língua, uma fala que rasga o corpo, ultrapassando “o organismo em direção a um corpo sem órgãos” . E por hora, gaguejar é tudo o que é possível... 
   O gaguejar se torna uma escolha ética no encontro com a própria língua, no encontro com a língua do outro, nos (des)encontros de corpos que falam ao movimentar-se em dança e sinais. Um texto(tese) repleto de remendos, afirmando a potência de cada rabisco, de cada linha, retalho e gaguejo. Pois que não está(rá) pronto, não se pretende acabado, mas um plano aberto para ser rabiscado, emendado, improvisado, cerzido no encontro entrecorpos que diferem. Corpos frágeis, desviantes, incompletos, gaguejantes, insatisfeitos. 
   Nesta pesquisaescrita, vimos conversando com nossos amigos Deleuze e Guattari  para forjar nosso modo de fazer cartográfico, nosso ethos no pesquisarvive(res)crever. Para Deleuze a gagueira é criadora “é o que faz a língua crescer pelo meio, como grama, o que faz da língua um rizoma em vez de uma árvore, o que coloca a língua em completo desequilíbrio: mal visto, mal dito (conteúdo e expressão)” .
     Compreendemos aqui a língua como um plano aberto e multiforme, um sistema para além da rigidez formal, a desviar da escrita majoritária, a diferir do que convencionalmente se pratica na asséptica escrita acadêmica, dita lócus da verdade. Dando a ver, na contramão, as sujeiras e sujidades minoritárias, os tateios e a própria fragilidade. Não como um modismo, ou por pura cisma..., mas eticamente também por cisma, por teimosia, pois que a vida que pulsa é fuga e urge! São titubeios repletos de manchas, arestas e deformidades.

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 Deleuze, 2011a, p. 143. Crítica e Clínica.

 Deleuze e Guattari, 2011a; Deleuze, 2011.

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 Deleuze, 2011a, p. 143.

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     Forja-se aqui um textofragmento em gaguejos e rabiscos de um corpo vacilante –  que vai mal com as palavras – um corpo em movimento que ultrapassa a fala em direção à língua, uma fala que rasga o corpo, ultrapassando “o organismo em direção a um corpo sem órgãos” . E por hora, gaguejar é tudo o que é possível... 
   O gaguejar se torna uma escolha ética no encontro com a própria língua, no encontro com a língua do outro, nos (des)encontros de corpos que falam ao movimentar-se em dança e sinais. Um texto(tese) repleto de remendos, afirmando a potência de cada rabisco, de cada linha, retalho e gaguejo. Pois que não está(rá) pronto, não se pretende acabado, mas um plano aberto para ser rabiscado, emendado, improvisado, cerzido no encontro entrecorpos que diferem. Corpos frágeis, desviantes, incompletos, gaguejantes, insatisfeitos. 
   Nesta pesquisaescrita, vimos conversando com nossos amigos Deleuze e Guattari  para forjar nosso modo de fazer cartográfico, nosso ethos no pesquisarvive(res)crever. Para Deleuze a gagueira é criadora “é o que faz a língua crescer pelo meio, como grama, o que faz da língua um rizoma em vez de uma árvore, o que coloca a língua em completo desequilíbrio: mal visto, mal dito (conteúdo e expressão)” .
     Compreendemos aqui a língua como um plano aberto e multiforme, um sistema para além da rigidez formal, a desviar da escrita majoritária, a diferir do que convencionalmente se pratica na asséptica escrita acadêmica, dita lócus da verdade. Dando a ver, na contramão, as sujeiras e sujidades minoritárias, os tateios e a própria fragilidade. Não como um modismo, ou por pura cisma..., mas eticamente também por cisma, por teimosia, pois que a vida que pulsa é fuga e urge! São titubeios repletos de manchas, arestas e deformidades.

     Ao narrar o meio, nos ex-pomos, expomos nossas tentativas e tateios em uma escrita sempre em movimento que afirmamos também como científica, e possibilidade outra de experimentar o pesquisarescrever na academia, na tentativa de produzir algo que não nega a lógica majoritária. Pois não buscamos

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ficar antagonizando, as dicotomias também não nos interessam, mas arriscamos por aqui puxar outros fios, fios que nos ajudam a dar a ver e a sentir o imprevisível, as incertezas do processo, aquilo que tem a ver com a existência de outros modos de escrever, pensar e viver. 

    No limite da incerteza, ao esgarçar e expor as entranhas do entre(meio) dos processos, titubeamos. E até tombamos. Por vezes, em silêncio. Outras vezes, desassossegadas no corpo que se esforça em suportar o processo, percebemo-nos em inquietas algaravias indiscerníveis, “é sempre em crise que gaguejamos” . “Conseguir gaguejar em sua própria língua (...) é difícil porque é preciso que haja necessidade de tal gagueira. Ser gago não em

Barros e Zamboni, 2015, p. 123.

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sua fala, e sim ser gago da própria linguagem. Ser como um estrangeiro em sua própria língua. Traçar uma linha de fuga.” . Eticamente, neste infindo exercício cartográfico bailado por aqui, arriscamos sustentar o estranhamento. Como estrangeiros habitando um território desconhecido, seguimos rabiscando linhas, puxando fios, acompanhando como estes fios se tramam, como se agenciam, gaguejando palavras inventadas, narrando os modos como nos produzimos no encontro de linhas – as nossas, as de outros.

    Deleuze  afirma que a língua pode ser compreendida de diferentes modos: como um sistema em equilíbrio, em uma estrutura dada, onde a coerência e a coesão se dão de modo progressivo e excludente seguindo determinadas regras em que “as disjunções são necessariamente exclusivas (não se diz ao mesmo tempo paixão, ração, nação, é preciso escolher), e as conexões progressivas” , em que os termos seguem determinada lógica ao se sucederem. Ou como um sistema em desequilíbrio no qual “as disjunções tornam-se inclusas, inclusivas e as conexões reflexivas, segundo um andamento irregular que concerne ao processo da língua e não mais ao curso da fala”  com uma língua em movimento constante, balançando em diferentes lados e direções, como uma gagueira, a gagueira afirmada enquanto “afecto da língua, não uma afecção da fala” .
     Ensaiamos aqui a escrita de um textorabiscado com entradas múltiplas com os cacos(restos) achados na processualidade do fazer. Achados rabiscados que não buscam compor um Texto-Tese-Todo-Completo, mas fraGmentos, cada fragmento como um todo em si mesmo dentro de uma pesquisaescrita fragmentada.
     Quem sabe possamos seguir fazendo de fragmentos nossa matéria e, neste processo, ler demorando na leitura... ir catando palavras e rabiscando entre parágrafos. E de algum modo ir problematizando, no próprio processo de escreverler, a escrita e a leitura como campo de pesquisa. Ensaiando e fazendo do lerescreverler um lugar de experiência como “alguém que ensaia a própria escrita cada vez que escreve e que ensaia as próprias modalidades de leitura cada vez que lê” . E assim quem sabe urdir uma forma de escrita que possa “enamorar a vida, quer dizer, de capturá-la e dirigi-la desde dentro... com gêneros menores, impuros”  Neste processo, corremos o sério risco de escrever apenas coisas passageiras. Mas, não é assim que estamos? Entalhados todos em um determinado tempo nesta grande bola? Resta-nos escrever dentro de um tempo e para um tempo. Apenas provisoriedades... o que fazemos é sempre transitório . 
     ... é que estamos cansados daquela CIÊNCIA grande que se quer atemporal e cheia de verdades e certezas, que fala sempre do mesmo modo, num tom de voz monótono em que parece que nada acontece e até a mais brilhante das ideias parece ter uma pálida cor cinza.
      Uma pesquisaescrita vacilante que toma forma para além do papel, não sabemos ainda qual forma – a fôrma foi quebrada lá atrás pela febre do víRus. Que tome corpo em suas (des)formas amorfas, que possa suportar o processo, que possa suportar o outro e sua recalcitrância, sua desobediência, se temos aqui uma reza que seja essa: a de nos expormos frágeis diante do outro, a produzir com o outro algo que toque o viver.

Deleuze e Parnet, 1998, p. 4.

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Deleuze, 2011a.

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Deleuze, 2011a, p.141-142.

Deleuze, 2011a, p.142.

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Deleuze, 2011a, p.142.

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Larrosa, 2016, p. 22.

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Larrosa, 2016, p. 20.

Adorno, 2003.

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... por palavrasdançantes e rizomas...

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Dançar e rizomar: o que há entre esses movimentos?

     A quem diga (e eu concordo) que a dança é coisa do corpo... 
     Mas me encontro por aqui com você em meio a letras, certo?
     Poderíamos usar essas letras em palavras organizando-as em infinitas disposições para falar sobre muitos assuntos – mas não todos, pois que tem muita coisa que nos passa que não há palavra que suporte. Mas deixemos a característica das palavras de “falar sobre” um pouco de lado agora... e se nos importássemos com o modo como usamos as palavras? Como as fazemos dançar?  É possível dançar a escrita? É possível dançar a escrita e a leitura e não (apenas) fingir?

 

palavrasdançantes e rizomas
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     Eis aqui uma pesquisaescrita que, em meio a um(a) PANDEM(ônio)IA,  convida para dançar. Faz sentido? 
     Uma tese, uma pesquisaescrita que se propõe uma dança entrecorpos, apesar do víRus e da distância.
     Mas uma tese não é feita de palavras? de papel? de tinta? 
     Pode danÇar? Cabem os corpos?
     O que há entre a palavra escrita e a arte da dança? E a duração da escrita? 
     E a duração da dança? 
     Um durante. 
     Tem como pegar o durante?
     Dança: arte equilibrista, frágil, errante, efêmera com a duração do instante em que acontece... Não são assim também as palavras? Efêmeras? Por aqui o são. Elas estão soltas soltinhas… e dançam. De vez em quando, no caminho, encontramos uma ou outra pedRa, mas elas também não nos compõem?
     Podem dançar as palavras? 
     As palavras dançam?
     Como????
     Como as palavras podem dançar? 
     Pergunta para você:
como você, minha amiga, dançaria as palavras?
     Perguntas que me faço:
     É possível fazer as palavras dançarem ao desenhá-las de outros modos? Ao desenhar os modos como seus sons provocam meus ouvidos? Ao desenhar o modo como suas formas em papel e movimentos em Libras provocam minha pele?

     É possível fazer as palavras dançarem ao levar à máxima intensidade seus sons e suas formas?

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Esta pesquisaescrita inicia-se no início do ano de 2021, segundo ano de distanciamento físico: corpos que não podem tocar-se, uso de máscaras e luta por vacinas. Um momento em que o mundo vivia (vive) a Pandemia da Covid 19, causada pelo coronavírus. Assim, em uma escrita que se produz como processo, incrustrada no tempo em que é forjada, as marcas deste tempo a atravessam, a produzem e são produzidas por ela. Nos anos de rabiscação desta pesquisaescrita em contexto global vivemos a Pandemia da Covid 19, mas escolhemos aqui também rabiscar esta palavra como PANDEM(ônio)IA para narrar da experiência de pandemia que temos vivido em nosso país que tem a ver com todo um contexto não apenas sanitário, mas também político e social que experimentamos durante este período, como explicitamos mais diretamente na NotaPresa do platô Avós.

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   E sua relação com outras palavras na escrita??? Sua sintaxe? É possível fazer dançar palavra com(na) palavra? Produzir outras relações entre elas? Eis o desafio. Uma relação dançante entre palavras rabiscadas e gaguejadas enquanto caminhamos e tateamos? Talvez essa seja a parte mais difícil: produzir relação entre as palavras de modo a compor uma escrita dançante... um dos desafios de uma pesquisaescrita que no encontro do corpo com outros corpos – corpos surdos, corpos textos, corpos avós, corpos estudantes, corpos professoras, corpos pedras, corpos rabiscos... – , no entre gagueja, rabisca, cambaleia e dança. 
     Pois que “pouco importa, neste mundo, a pergunta sobre a essência das coisas [palavras]. Estamos mais preocupados em saber como elas se combinam, como elas se compõem, como elas se conjugam. E depois, ver o que resulta dessas combinações, dessas composições, dessas conjugações. E depois ainda, perguntar-se se (sic) elas são boas ou se são más.”  Entendendo aqui bom e mal não no sentido moral de bem e mal, mas em relação àquilo que produz vida, se estas combinações aumentam ou se diminuem a potência de vida, alegria e gozo. 

     Podem palavras dançantes, rabiscos, gaguejos, linhas e novelos aumentarem a potência de vida nos encontros com outros corpos em Libras e em Português? O que acontece quando corpos com línguas diferentes se encontram para dançaR(abiscar)? 
     (...)

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Tomas Tadeu, 2002, p.53.

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Deleuze, Gilles. 2019.

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     Podemos colocar para dançar os conceitos, as palavras e as coisas? Talvez possamos perguntar aos animais. 
…disseram os animais ao profeta Zaratustra: “para os que pensam como nós, as próprias coisas dançam” . 
     Com outros, com os animais e suas coisas, arriscamos propor aqui o dançar como ethos, como pulsão, como vida. O dançar como possibilidade de pesquisa e escrita em educação no encontro com estudantes surdos, textos, sábias avós, coisas e pedacinhos de coisas... “o dançar em todas as suas formas, o saber dançar com os pés, com os conceitos, com as palavras; ainda tenho de dizer que também é preciso saber dançar com a pena, — que é preciso aprender a escrever?” .

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Nietzsche, 2021, p.200.

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Nietszche, 2006, §7. 

palavRas dançanteS
 

Certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca. Sílfide", por exemplo. É dizer "Sílfide" e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com o que a palavra significa. "Sílfide", eu sei, é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa diáfana, leve, borboleteante. Mas experimente dizer "silfo". Não voou, certo? Ao contrário da sua mulher, "silfo" não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. "Silfo", zupt, plof. A própria palavra "borboleta" não voa, ou voa mal. Bate as asas, tenta se manter aérea mas choca-se contra a parede. Já a terrível palavra "seborréia" escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete... Seria o caos. E "caos", você sabe. É uma palavra chicle-balão. Pode explodir na nossa cara. 
Luis Fernando Veríssimo 

Veríssimo, 2008, p.67.

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     Um aviso (caso ainda não tenha percebido): todo este textotesedançadorabiscado é pura implicação, uma pesquisaescrita feita de papel e carne (e papel, e carne, e tempero, e avós, e cacos, e Libras, e rabiscos, e pausas, e gritos, e outros, e, e, e...). Vamos puxar mais algumas linhas guardadas e tentar dizer como se forjam as tais palavrasdançantes que veem pipocar por aqui?

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     No Ensino Médio, uma magrela dançArina foi matriculada em uma escola que não queria, a mesma que a trans(de)formaria viceralmente: IEPIC (Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho). Lá, já no primeiro ano, essa dançArina conheceu um senhor de barbas brancas, olhos gentis e língua afiada chamado Paulo Freire. Lá também conheceu um período do dia chamado “tarde”, aquele espaçozinho depois do almoço que ficamos mais moles entre às 13horas e o lanche das 17h. Uma época em que uma adolescente que estudava no centro da cidade, à distância de dois ônibus lotados de sua casa, sente-se livre e se dá a liberdade de fazer o que quiser depois da escola (das 13h às 17h nos dias sem estágio). 
     Foi, nesse tempo, que ela descobriu que no Centro havia algo que na periferia só havia conhecido quando bem pequena, com uma tia preta contadora de histórias, moradora do 3º andar da escola no Reino Encantado dos Livros: BIBLIOTECAS! Sim, com letras garrafais e com S de plural! O Ensino Médio no IEPIC apresentou para uma dançante adolescente – que antes não queria ser professora – um mundo novo, um MUNDO GRANDE, livre para ir e vir. Nessa liberdade, a já um pouco crescida, a bailArina escolhe “O Reino Encantado” e se apaixona por livros, por ser professora e devém-coreógrafa de palavras inventadas.

Lá era um lugar no qual a menina magrela podia ir e vir entre livros os mais variados, pelo tempo que quisesse... Você entende? Pelo tempo que quisesse! “É tudo o que uma pessoa grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer” . 
Ao se aproximar do lugar mágico, fingia que não tinha o que finalmente podia ter. “Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece até que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.(...) Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante”  

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A felicidade clandestina de Clarice, 1995, p.54.

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A felicidade clandestina de Clarice, 1995, p.55.

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Isso!
Exato. 
BorboleTA! 

     Descobre, como quem escava a própria cidade na procura de tesouros, castelos enormes cheios de livros: Bibliotecas, Sebos e Livrarias... nas bibliotecas, passava a maior parte das tardes, em algumas – as que eram gratuitas– se tornou sócia... Nos sebos, os autores clássicos eram baratinhos, com 1 real conseguia comprar até 3 livros! E nas livrarias, podia ler e folhear quantos livros quisesse enquanto suas pernas aguentassem em pé. Foi assim que lendo o pai (na biblioteca) encontrou o filho (em um sebo): Veríssimos.
     E o filho a transportou para um falar de criança quase esquecido na memória:
sentir no palato o tom, o gosto e o vibre do som das palavras, sentir no corpo também, em especial no corpo... Encantar-se com alguma palavra qualquer como se fosse pela primeira vez, mesmo sendo aquela mais comum e repetir e repetir e repetir brincando até que ela se transformasse em outra coisa. 

     

     Sílfide: certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca. 
     Silfo: tem o alcance máximo de uma cuspida.
     Seborréia: escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete.
     Borboleta: bate as asas, tenta se manter aérea mas choca-se contra a parede.

 

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     Tenta dizer: Bor-bo-le-TA!
     (Coloque seus pés a saltitarem,

batendo os braços voe de olhos fechados...)
     Bor-bo-le....TA!
     Bateu? Não foi?! (a expectativa me empolga!)
     Agora junta uma adolescente bailarina, uma professorarteira

já ‘formada’ se embolando de novo, e de novo com uma criança

magrela que brinca com as palavras? Que brinca com a palavra-

tinta, a palavra-som, que sempre vibrou tomando forma pelos nervos do corpo, espiralando e escapando pelo movimento intenso de um corpinho cinestésico que não para quieto na carteira. Que cresceu, professorarteira, agora em arredondadas formas de um corpo outrora esguio a brincar também com a palavra-gesto, palavra-sinal, aquela chamada de Libras que toma de assalto os nervos e a faz voar devindo outros tempos todos em um só.
     Ok. São muitos tempos em um só. Mas, esquece o relógio, a idade, vem comigo e sente tudo isso agora, no tempo do já, esse tempo que chamamos presente. “Não se pode... traduzir só se compreende sentindo com o coração” . Talvez a gente encontre junto isso aí na sua língua que faz vibrar seu corpo também. 

     Por ora, fale: Bor.bo.le.TA!
     

     Por ora sinalize:  
     (voou? Ou bateu?)
     Outro aviso: esqueça o dicionário (só por essas linhas, ok?), Apenas sinta.

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Paráfrase: Deleuze e Guattari, 2021.

sutiÃ...

Não sei você, mas ao lersentirdançar a palavra-sinal Bor.bo.le.TA eu lembrei da palavra sutiÃ... (escrita assim mesmo e de outras formas mais, mas vamos devagar, não quero que desista logo de cara). 
Lembrei de três crianças pequenas da educação infantil em um dia quente, correndo com amassadas folhas de jornal nas mãos brincando de ler, bem antes do tempo em que os adultos diriam que já sabiam ler. No faz de conta, pegavam e abriam as folhas, olhando atentas aquele mar de letras, e se revezavam, cada uma a seu turno, para pegar o jornal e ler para as outras, enquanto estas ouviam atentamente e aguardavam sua vez. Até que, entre uma lista enorme de palavras inventadas, uma das crianças lê a palavra: sutiÃ. 
Pronto.
Acabou a brincadeira.

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     E começa outra brincadeira muito mais divertida: falar uma palavra proibida. Proibida por quem? Até hoje eles não sabem. Mas que era proibida, isso era. Repetiam “sutiÔ e escondiam o rosto. E repetiam e gargalhavam. E ouviam o outro dizer e achavam ainda mais engraçado. E falavam com vozes diferentes, em vários tons, sentiam o “Ô lá no fundo da garganta (era quase sufocante).  E repetiam sussurrando. Menos gritando. Gritar não podia, a palavra era proibida, lembra? Mas gargalhar alto, isso sim podia. E quem olhasse não entendia. Era um segredo deles, só deles. Repetiram aquela palavra a semana toda de diferentes modos, baixinho perto dos adultos, deixavam a professora e os pais enlouquecidos e se riam sem ninguém entender. Era seu segredo. 

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Como?


Palavras da superfície do como. Apenas como, sem porquês.


     Chegando aqui, é possível que você já tenha sentido que não dá para necessariamente compreender o que estamos tentando dizer. Compreender naquele sentido dicionarizado de “entender racionalmente, conter dentro de algo, abarcar em si mesmo; carregar em sua essência; capturar” . Por isso, as linhas daqui contêm apenas o emaranhado como. Uma língua gaguejante forjada no presente, com memórias catadas de um corpo vacilante que vai mal com a palavra acostumada... Vamos continuar então variando um pouco mais por aqui e devindo outros e “não se trata de uma semelhança entre o comportamento de [uma criança] um animal e o do homem; e muito menos de um jogo de palavras. Já não há homem, nem animal, [nem criança] visto que cada um desterritorializa o outro, numa conjunção de fluxos, num continuum reversível de intensidades”  de idas, e vindas e quebras, e voltas, e repetições, e voleios, sempre em movimento. 

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Deleuze e Guattari, 2021, p. 45.

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coreografia, catamos algumas palavras e sinais, uns abandonamos pelo caminho, outros guardamos em bolsos quase esquecidos, outros pertinho do coração para rememorar constantemente. Fazendo usos, outros usos possíveis da língua dentro da própria língua, usos menores, sempre menores.

     Fazendo usos, brincando com a língua dentro da Língua Grande, estabelecida e cheia de regras (seja a Língua Portuguesa ou a Libras, ambas são monumentos prescritivos e compulsórios). Fazendo usos da palavra-som, e da palavra-gesto, como uma criança surda criando e descobrindo muitas formas e possibilidades e intensidades para expressar o que sente ao dizer de tantos modos o sinal G.O.S.T.O.S.O, ou como uma estrangeira bailArina descobrindo com os surdos as nuances do movimento da palavra-gesto N.U.N.C.A. que ecoa infinitamente ao fazer seus dedos ondularem (ondulações que nada tem a ver com o significado da palavra nunca).   

     Brincando, jogando e devindo outros modos de existir fazendo “vibrar sequências, abrir a palavra às intensidades interiores inéditas; (...), uma utilização intensiva a-significante da língua” , por isso nem sempre nos importam os dicionários, mas arriscar pensar as palavras de modos outros, sentindo-as, criando dentro delas e com elas outras possibilidades com sua cadência, sua forma... arriscando a experimentar sinais em Libras na vibração do corpo, descobrindo seus gostos, vibrações e sons. Nesta

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     Devir-outros, qualqueRes de coisas qualquereS: mulher, animal, surdo, estrangeiro, etc. Um devir sempre minoritário, um “não fingir, não fazer como ou imitar a criança, o louco, a mulher, o animal, o gago ou o estrangeiro, mas tornar-se tudo isso, para inventar novas forças ou novas armas”  e intensidades, desde dentro da escola, com crianças surdas, com crianças que carregam diagnósticos nos fluxos de uma vida categorizada, marcada, setorizada e rotulada.

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     Em crise – no momento mesmo em que escrevemos estas linhas – fazemos a palavra dançar para encontCrIar com elas sentidos outros para nossos corpos serem como são, cavando momentos de liberdade em uma língua maior que se quer acadêmica, fazendo escorrer (como a palavra seborreia do filho Veríssimo) uma monotonia de palavras acostumadas e em uma língua maior que se quer médica a imperar nos corpos de estudantes ditos com deficiência na escola. 
     Há que se ter cuidado aqui com a palavra liberdade, cavar momentos de dita liberdade não seria algum tipo de salvação, ufanismo, em qualquer sentido escatológico ou teleológico. “Não se trata de liberdade por oposição à submissão, mas apenas duma linha de fuga, ou melhor, duma simples passagem, à direita, à esquerda, onde quer que seja, a menos significante possível.”  Uma passagem, cavar uma passagem que nos sirva no presente, no agora, que pode não fazer sentido depois, mas que nos é visceral neste exato momento, que nos permita respirar até que não sirva mais e seguiremos cavando outras. Rabiscando, quando não se pode mais escrever, gaguejando o que não se consegue falar, catando palavras que sobram pelo chão, apanhando sinais pendurados nos cotovelos, fazendo vibrar aquelas que nos grudam no céu da boca e no céu da mão ao “escrever como um cão que faz um buraco, um rato que faz a toca. E, por isso, encontrar o seu próprio ponto de subdesenvolvimento, o seu patoá, o seu próprio terceiro mundo, o seu próprio deserto” . 

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De modo algum

ser livre,

mas encontrar

uma saida,

ou bem

uma entrada,

ou bem

ao lado,

um corredor,

uma adjacência,

etc.

     E no meio dessas linhas lembro da bailArina serelepe no Curso Normal, que em Libras aprende seu nome, como que pela primeira vez, e gagueja. Percebe-se estrangeira. E de novo, como as crianças e seu segredo: repete, repete, repete e brinca... “As crianças são bastante hábeis no seguinte exercício: repetir uma palavra cujo sentido é apenas vagamente pressentido, para fazê-la vibrar sobre si mesmo” 
     Então, a bailArina rouba as palavras novas que lhe disseram ser sinais, abandona de novo seus sentidos e torna-as corpo, movimento, onda nos dedos que aprendem agora a bailar a Libras, ao sinalizar o próprio nome, ao repetir seus primeiros sinais e transformar a Libras em outra coisa, em seu corpo.

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